forqueens
Maria que acorda às quatro da manhã. Maria que vê o sol nascer do metrô. Maria que não vê os filhos indo para a escola. Maria que limpa, cozinha e passa. Maria que não tem nome. Que não tem idade. Maria que não tem história. Maria que é do norte. Maria que ninguém conhece. Maria que pega cinco ônibus por dia. Maria que ganha salário mínimo. Que recebe cesta básica. Maria dos três filhos. Das três horas de sono. Maria que ora todas as noites. Que tem dois empregos. Maria que chora quando não sobra dinheiro para os presentes no natal. Que chora quando não sobra dinheiro para o feijão. Maria que chora quando a chuva cai e treme o teto. Que chora de saudade da terra. Chora por estar doente e na fila do hospital há dias. Maria que trabalha no feriado. Que sorri quando encontra os filhos dormindo. Sorri quando sobra dinheiro para o pão. Maria que sorri quando Deus lhe ouve. Que sorri quando ganha aumento. Que sorri quando chega a hora de ir para casa. Maria que sorri quando dorme. Maria que luta. Que vive. Maria que tem fé. Que sonha. Maria que grita. Maria que é anjo. Que é guerreira. Maria que ninguém vê.
Olha só, moço dos olhos meus, eu só sei amar você. Antes de eu conhecer essa sua cara de bravo, não sabia nada do mundo. Hoje sei que foi te vendo passar, que descobri como é viver. Foi seu sorriso que me ensinou a rir assim. Foram esses braços que me ensinaram os passos de dança e a beleza dos abraços. Foram esses olhos pedindo “fica” que me ensinaram a ficar. E fiquei. Fui ficando. Fiquei guardada nesse seu coração grande que me ensinou a amar.
rio-doce (via rio-doce)
Não há nada errado, é assim que as coisas são. As coisas fluem, pessoas vem, dias vão, as horas voam, a vida caminha, e o mundo não para de girar. O rumo ninguém sabe. Sabe-se a rota dos planetas, o tempo que a Terra leva para completar a translação, para onde vão as águas do rio, para onde partem os pássaros no inverno. Sabe-se o caminho para as Indias e o caminho para casa, mas não se sabe o caminho da gente. O nosso caminho, por mais que a gente trace e re-trace, não é feito os labirintos dos jornais de sábado, com apenas uma saída. O nosso caminho muda a cada esquina virada, em cada decisão tomada. Se saímos de casa cinco minutos mais tarde, o sol já está mais forte, o vento está para outra direção, o amigo que encontraríamos na calçada já foi embora, o metrô já saiu da estação e já não somos os mesmos. Se saímos cinco minutos antes, o sol está mais fraco e o vento em nossa direção. Ele bate forte em nosso rosto fazendo voar o chapéu e corremos pela rua na tentativa de salvá-lo rápido e… um táxi. Um táxi de uma pessoa atrasada 5 minutos nos pega no meio da rua salvando o chapéu. Tão injusto quanto a morte é essa nossa vida que não podemos controlar. Sabe-se a rota dos mares mas não se sabe a rota que a vida nos leva. É assim.
rio-doce (via rio-doce)
Quero fazer essa brincadeira das fotos também! Mandem as suas fotos aqui:

rio-doce:

rio-doce.tumblr.com/submit (Opção Submit a Photo)

É isso que eu faço, afasto as pessoas de mim. Nunca sei se é uma tentativa de me defender ou se não é nada intencional. Faz parte de mim criar barreiras porque, às vezes, é tão mais fácil ter que lidar só com seu próprio temperamento. E como o meu é difícil de domar, acabo optando por ficar assim…longe, presa num quarto escuro, só eu e meu mau comportamento. Não tenho condições nem de cuidar de mim, quanto mais dos outros.
rio-doce (via rio-doce)
No fundo, no fundo eu sou frágil. Gosto de parecer uma pedra de gelo, uma barra de ferro, mas, no fundo, sou um pedaço de vidro, um papel de carta que rasga à toa, um enfeite de estante que quebra fácil, fácil. Minha estrutura é fraca, não sirvo para ficar no porta-malas, meu lugar é no colo de quem está de passageiro para não virar e desmontar. Eu preciso de cuidados, por mais que eu diga que sei o que ando fazendo, por mais que eu diga que sei me cuidar. Por mais que eu me considere ajuizada e entendida do mundo. Ninguém é forte o bastante a ponto de conseguir viver sozinho. Ninguém é tão durão quanto dizem ser. Todo mundo precisa de um carinho, um cafuné, um afago quando a coisa aperta.
rio-doce (via rio-doce)

rio-doce:

Meu tributo à Legião Urbana (Eduardo e Mônica)

Essa não é uma bela história. Não te aconselho a ler e, muito menos, a narrar aos seus filhos na hora de dormir. Ele saiu para trabalhar como todos os dias fazia: café tomado, camisa abotoada, cabelo arrumado, sorriso no rosto. Atravessou a rua como qualquer dia, subiu no ônibus das oito horas na avenida das nações como sempre fazia, olhou o movimento pela janela, buscou olhares perdidos como todo dia, ouviu suas músicas do começo ao fim da rota. Ouviu as mesmas de sempre. Aviso novamente: não é uma boa história. Passou em frente ao banco, ajeitou a roupa no vidro espelhado como sempre fez, olhou para o relógio que já quase avisava seu horário. Chegou num prédio alto como todo dia, cumprimentou alegremente o porteiro como de costume, entrou no elevador e pressionou o botão do mesmo andar de ontem, anteontem, ano passado e mais passado ainda. Entrou no escritório, sorriu para as mesmas pessoas, olhou os mesmos arquivos, abriu a mesma gaveta, atendeu o mesmo telefone por todo o dia. No fim do mês, ganhou o mesmo salário alto de todo dia 20. Eu sei, leitor, a história não poderia estar mais chata, mas assim era a vida daquele homem de aparência jovem, mas de alma velha e explorada. Sinto ter que continuar, mas… Lá estava ele: indo e voltando todos os dias dos mesmos lugares, até que nessas idas e vindas atravessou a mesma rua de sua mesma casa quando encontrou uma resposta. Pensou ele o mesmo que você neste momento pensa: onde isso irá parar? Sentiu ele o mesmo: Nada disso faz sentido. A diferença, meu caro, é que para você é apenas uma história e para ele era (apenas) uma vida. A mesma vida. Então, atravessou a rua 5 minutos depois do normal, sem ter tomado café, de camisa amassada e sem sorriso algum. Subiu no ônibus das oito e meia na avenida Dom Jõao, olhou o movimento da catraca, buscou alternativas, ouviu o som do motor. Passou em frente ao banco e sequer olhou, tirou o relógio e guardou no bolso. Chegou num prédio alto como todo dia, cumprimentou alegremente o porteiro como de costume, entrou no elevador e pressionou o botão… do último andar. Ele sorriu, meu caro leitor… sorriu, sim. Finalmente tinha feito algo novo. Olhou os carros parados no sinal 24 andares abaixo de seus pés e pensou “pobres homens vivendo dias iguais” e vôou. Vôou. Vôou. E caiu. Morreu numa esquina desviando o trânsito para outra direção. Ao menos algo diferente na vida dos motoristas.
rio-doce (via rio-doce)

rio-doce:

Que os dias tragam cheiro de chuva

Brisa de mar e geada para pintar a calçada.

Que tragam mais banhos de mangueira

E mais perfume de coberta lavada.

Que seja sempre primavera,

Que as vidas continuem belas

E os corações, aquecidos

No fogo das lareiras

Nas chaleiras inquietas

Nos fogões à lenha.

Que as manhãs tragam brisa

Chá, café, vida

Que as tardes tragam céu azul

Vestido de seda e chapéu 

E que as noites tragam chuva

Vento gelado, pés quentes e mãos juntas.

Que o tempo não pare

Que a vida não pare.

Que vida tenha tempo

E que o tempo tenha vida.

forqueens

Seu cabelo cor do sol contrastava com o inverno sob a pele. Aquelas mechas cor de fogo, quando fazia vento, dançavam tanto que, por um instante, cheguei a pensar se tratar do próprio elemento. Vivo. Vivo como faísca, como calor do meio dia. Toda vez que ela passava, enchia de cor os olhos meus. Ela era capaz de clarear a noite, capaz de dominar o astro rei. Ela era capaz de aposentar a lua com seus fios dourados feito ouro. Toda vez que ela passava eu ouvia os girassóis girando e acompanhando o passo dela. Eu acreditava que toda a alegria do universo se guardava dentro daquela alma. Mas a menina - quem diria - com sua trança de fogo, era gelo. Era fria como as águas congeladas do extremo norte, fria como a noite. A menina que parecia sol, na verdade, era neve. Disso eu tive certeza quando ela tocou meu coração e, então, tudo, tudinho, virou picolé.
rio-doce (via rio-doce)